Fidelidade na Religião Afro-Brasileira

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Toda religião instituída preconiza temor e respeito ao divino, e principalmente fidelidade. Prova disso é que na maioria das religiões que conhecemos um crente procura fazer novos crentes e luta fervorosamente para o crescimento a evolução e a prosperidade do templo e do grupo, observando sempre regras comportamentais de condutas que elevam e estimulam o bom nome da religião.

Fidelidade é a propriedade que consiste em manter ou preservar as características originais sem jamais, em qualquer estágio da vida, aceitar modificações.

Temos a satisfação de viver num momento de grande importância para o desenvolvimento do planeta, as portas do terceiro milênio, mas infelizmente nossos crentes cada dia mais se tornam somente crentes e pouco ou quase nada fiéis mesmo sabendo que a fidelidade é o que vai suportar a permanecia e o futuro da nossa religião afro-brasileira e da Umbanda.

Nossa religião está em ascensão, dia a dia mais e mais crentes se filiam e se iniciam em terreiros, este incremento na quantidade de membros em nossas terreiros, ilês e Nzôs poderiam serem analisados em primeiro plano como positivo, mas para termos uma percepção mais justa precisamos observar se estes novos membros buscam religião como elemento de religação com o divino e o sagrado, ou o buscam através do ingresso religioso uma forma de aceitação social, passatempo ou fazer moeda de troca com o sagrado, na intenção ingênua de um pacto pela compra de felicidades particulares.

O caminho evolutivo das religiões afro-brasileiras são tortuosos e há necessidade de tempo, para que sua teologia, praticas e rituais sejam assimilados com firmeza será o tempo quem dará posto aos iniciados mais recentes de nossa crença, porém, nunca na história do Batuque se viu tantas pessoas prontas esta realidade pode se tornar perigosa a partir do momento que não se reconheceu ainda naquele iniciado a fidelidade religiosa, e principalmente sua predisposição a manter acesas as chamas da tradição de sua feitura, antepassados e ancestralidade e seu fundamento.

Vivenciamos em meio a nossa religião um momento torpe onde pessoas desavisadas a usam, independente do meio, como espaço de notoriedade, porque pensam ser este o único campo dentro da sociedade onde poderiam se destacar e serem famosos.

Perde-se a noção da necessidade de aprendizagem, de saber fazer religião e do porque fazer, gerando a falta de comprometimento com a parte material e espiritual que a religião exige.

Atualmente se percebe uma pouca identidade de respeito com o sagrado muito menos com a hierarquia, as pessoas não estão mais sujeitas a sentar e aprender porque seu objetivo após o aprontamento é ter uma casa de religião, dar festas e divulgar sua casa em jornais e redes sociais.

Isso tudo sem ter vivido o tempo necessário de aprendizagem religiosa, levando muitos a romper com seus zeladores e migrar de casa em casa, se iniciando na NAÇÃO POQUIM, isto é, juntando um pouquinho daqui e um pouquinho dali e formatando um novo fundamento fraco e sem a estrutura da raiz de sua Nação, isso quando não optam por se governar, onde literalmente pode acontecer o total enfraquecimento do fundamento e ainda por falta de conhecimento mesclar culturas religiosas que nada tem a ver com sua feitura inicial fato que levará o indivíduo a ser desconhecido por sua divindade, mentor ou guia.

Existem dois elementos gravíssimos que nos rondam enquanto religiosos, primeiro a falta de fidelidade em meio ao povo de santo, e ainda, o orgulho positivo de ser crente daquela linhagem onde foi feito ou desenvolvido. Segundo a falta de conhecimento de onde começa e termina a sua religião, e onde começa uma outra denominação do afro-brasileirismo ou do mediunismo.

É triste lembrarmos dos sofrimentos que vivenciaram nossos antepassados, para nos outorgar a religião plena de bênçãos nestes novos tempos, e triste também, sabermos que podemos estar a desonrar seus ideais em manter viva a ideologia de desmistificar para o cidadão comum a frase que diz: “batuque” ou “macumba” é tudo igual.

A teologia das crenças nos mostra as diferenças entre os ritos, entendimentos e dogmas preconizados por cada religião medianímica e afro-brasileira, para que não venhamos a incorrer nesta injustiça que se aligeira em nos cercar, ou seja, permitirmos que aquilo que nossos antepassados lutaram para manter com seus limites sólidos e definidos seja uma atualidade do futuro: Umbanda, Nação, Candomblé e outras do grupo mediúnico se tornarem uma coisa só.

Enquanto religiosos precisamos divulgar e dar exemplos de que somos uma religião feita de amor e dedicação que tem suas bases sólidas onde seus cultos se baseiam em ritos, dogmas e liturgias que são transmitidos verbalmente desde a ancestralidade, de geração para geração e tem por base fundamentos e tradições.

Fundamento significa base quando olhamos para uma casa não notamos o seu alicerce, mas ele está lá e é a base para toda a edificação.

Quando manifestamos nossa fé, diante de uma divindade assentada, e ritualizamos nossa devoção ao sagrado através das religiões afro-brasileiras, lá está o fundamentos, poucas vezes percebido, por ser permeado por sigilos, critérios e saberes restritos.

O fundamento é a prática ritual que atrai ou repulsa a espiritualidade, o imaterial e invisível, somente perceptível pela fé e pelas consequências desta ritualização manipulada sobre a feitura e estruturação da energia.

Existem coisas que são importantes e coisas que são necessárias e devemos saber distingui-las.

Coisas importantes: são coisas que precisamos, são boas, que tem grande valor para nós, por isso valorizar, honrar e respeitar nosso credo faz com que nos tornemos cidadãos respeitados e com uma fé religiosa também respeitada.

Autor: Pai Mozart de Iemanjá

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