Quem expõe o sagrado NÃO respeita o seu Orixá

O PERIGO DA TECNOLOGIA DENTRO DO BATUQUE

O batuque é uma religião linda, secular, presente na sociedade gaúcha desde o seu surgimento. Seu crescimento é cada vez mais evidente, principalmente quando verificamos a quantidade de adeptos nos últimos anos.

É a ascensão não só de uma doutrina, mas de um modo de vida que ganha os lares gaúchos e já se expandiu além-fronteiras. A todos quanto possa interessar, o Batuque é hoje maior, em número de religiosos, que o Candomblé, que é a referência de religião de matriz afro no Brasil.

Contudo, junto dessa enxurrada de iniciados, isto é, esse flagrante aumento na quantidade de pessoas que entram para o Batuque, sobreveio algo que anda na contramão do tradicionalismo que a religião glorifica: a exposição, nem sempre benéfica, do culto e a negligência para com os segredos e tabus.

Como creio que seja em toda a religião ortodoxa – e acredite, somos ortodoxos, apenas aceitamos a todos pois não nos nivelamos pela moral cristã -, o Batuque possui um ritual repleto de segredos, dogmas e tabus que o faz a religião única que é. Os tabus existentes em sua maioria nos proíbem de registrar alguns momentos e preceitos, seja por foto ou por vídeo; sacralizações, ocupações e assentamentos ocupam o topo dessa lista.

Deve, por fim, ser papel de todo o iniciado zelar por isso e garantir seu cumprimento durante todos os rituais. No entanto, parece que o advento da tecnologia e fácil acesso a ela por todas as classes sociais teve algum efeito sobre os religiosos, que hoje veem no storie do facebook, na imagem do instagram um local melhor para guardar essas memórias do que o próprio coração. Por alguma razão, é mais importante mostrar que fez do que simplesmente fazer.

Dogma, para situar os irmãos, é um ponto fundamental de uma doutrina religiosa, apresentado como certo e indiscutível.

A ocupação no Batuque é um segredo na religião e isso data de muito antes de qualquer um dos leitores ter nascido; não há consenso sobre o porquê, mas é universal no Batuque que “o cavalo de santo não pode saber que é cavalo de santo”. Ou seja: quem se ocupa com Orixá, expressão que usamos para nos referirmos a manifestação das nossas divindades através da possessão do corpo de um iniciado, não pode de forma nenhuma saber disso e é um dos primeiros ensinamentos que qualquer pessoa, iniciado ou não, recebe ao se aproximar de um culto nosso. Ocorre que ultimamente tem surgido com cada vez mais frequência registros digitais desses segredos e tabus, feitos por pessoas que ignoram uma tradição secular, seja por desconhecimento ou por pura maldade. Acredite ou não, tem gente que expõe a sua religião e despreza toda a sua tradição se pensar que isso pode prejudicar um desafeto. E no final, o problema é de todos os religiosos: do iniciado, que, desavisado, pode acabar acessando o conteúdo e sabendo de algo que toda a sua família guarda segredo, por força da tradição e do respeito ao Orixá, e da religião que definha com a desunião e com os ataques, baseados justamente no que é exposto, dos fundamentalistas cristãos e outros contrários a nossa fé.

Chegará o tempo em precisaremos colocar placas nos espaços sagrados, indicando que é proibido filmar e fotografar nos ilês. E o pior disso tudo é que o aviso vai para os religiosos, não somente para os leigos e assistentes. Precisaremos instalar portas giratórias para evitar que entrem nos terreiros com aparelhos de filmagem? Recolher os celulares durante o ritual? Eu temo muito pelo momento em que religiosos não poderão confiar um nos outros dentro da própria casa. E esse tempo não está longe, mas cabe a nós, tradicionalistas e com amor pela religião, resistir a isso, pois o mais prejudicado é o nosso sagrado.

Se você também é contra a exposição do Batuque, pense a respeito e compartilhe essa ideia.

 

Autores: Pai Phil de Xangô Agandjú Ibeji e Jean de Oxalá
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